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sexta-feira, 1 de maio de 2015

Os passeios do Luka - aprendizados



Au!

No prédio vizinho morava o Quim, um Yorkshire como eu, só que maior, com pelo castanho na cabeça e cinza no corpo. Como todo cão consciente, levava o humano dele para passear na rua todo dia. A gente se via, trocava informações olfativas e continuava o passeio; um sujeito legal.

Até que o humano do Quim começou a passear sem ele. E depois começou a passear com um Golden Retriever. E nunca mais vi o Quim.

É fácil deduzir que o tempo dele aqui neste mundo transitório acabou, como acontece com tudo que um dia nasce. É assim que a vida funciona desde sempre, e continua assim pelo universo a fora.

Senti falta do meu amigo que conhecia desde que éramos filhotes, mas sei que a separação também é passageira: em algum lugar, em algum momento, com outra cara, nos veremos de novo.

Mas também fiquei contente de ver que o humano dele aprendeu a lição: nós - cães, gatos, periquitos, papagaios, etc. - convivemos com os humanos para que eles, ao aprender a nos amar intensamente como nós os amamos, consigam amar-se também entre eles, para que não confundam amor com apego ou posse.

Cada vez que um de nós, não-humanos, deixa este mundo, o humano que viveu conosco fica triste, mas tem a chance da escolha: vai se apegar ao que passou e, com a desculpa de "não quero sofrer de novo", vai evitar exercitar o amor que desenvolveu e se fechar na tristeza auto-imposta, ou vai acolher outra alma não-humana no seu lar e dar a ambos a chance de compartilhar o melhor sentimento do mundo?

Ninguém é substituível, e não se trata de trocar alguém, como uma peça de uma máquina, mas sim expandir os sentimentos bons e  mostrar que se aprendeu que não importa se são duas ou quatro pernas; se late, mia, pia, grasna ou fala outra língua; se tem pelo, pena, ou só cor diferente na pele; que o importante é amar, cuidar e compartilhar.

Au!


quarta-feira, 8 de abril de 2015

Os passeios do Luka - ainda há esperança



Au!

Dia desses, passeava eu com meu humano macho, quando vimos pifar o carro velho de outro humano, na nossa frente.

Meu humano, bem treinado, já ia colocar a minha guia em algum portão - muitos humanos são meio perdidos e precisam colocar guia e coleira em nós para conseguir nos encontrar se nos afastamos deles - para então ajudar a empurrar o carro velho que estava no meio da rua, quando vieram correndo dois
lixeiros, do caminhão de lixo que chegava perto, e juntos empurraram o carro até ele embalar e pegar no tranco.

Fiquei animado: pelo menos quando o interesse próprio deles não está ameaçado, eles se lembram que são parte de uma única e imensa matilha, e se ajudam uns aos outros. Ainda há esperança para os humanos.

Au!

quarta-feira, 18 de março de 2015

Os Passeios do Luka - treine fazer o que é certo


Au!

Dia desses estava levando meu humano macho para passear, quando vi algo que me deixou chateado: outro irmão canino, modelo salsichinha, fez seu cocozinho na calçada, como todo cão faz - os gatos é que instintivamente enterram o que fazem - e o humano dele não recolheu a caca! Os dois foram embora e o montinho ficou ali, no meio do caminho de todo mundo! O meu irmão canino não treinou o humano dele a sair com papel e saquinho e recolher os detritos!

Cara, isso não pode! Se não treinarmos os humanos a fazer o que é certo, como recolher o nosso cocozinho da rua, logo esses humanos meio lerdos vão jogar bituca de cigarro no chão (ou pela janela do do apartamento), vão jogar lixo pra fora da janela do carro ou do ônibus, contaminar as suas próprias fontes de água potável...

Ensine o seu humano que ele não vive isolado e sem responsabilidades, para que ele se acostume a fazer o que é certo.

Au!

domingo, 25 de janeiro de 2015

Os passeios do Luka: diálogos



Au!

Num dos últimos passeios em que levei meu humano para a rua, repetiu-se um acontecimento frequente: outros humanos que, normalmente, no máximo soltam um “Bom dia” quase inaudível – para os humanos, porque nós, cães, escutamos muito bem – se aproximam, atraídos pela minha presença, sorriem, conversam comigo, e a princípio para não ficar mal, e depois porque recuperam um pouco do seu traço social, conversam também com meu humano.

Os humanos andam cada vez mais ausentes de espírito, preocupados, sisudos, perdidos em pensamentos ou nas telas dos seus pequenos aparelhos sempre presentes, e cada vez mais eles se esquecem de que também são animais sociais.

Felizmente existo eu e meus irmãos caninos, para ajudar a reconectar esses bípedes pelados com um pouco da sua essência social; é irresistível ver um cachorro simpático e não sorrir ou puxar conversa, ficar indiferente.

Meus amigos gatos podem ser campeões de vídeos fofinhos no FaceBook, mas cachorros são imbatíveis para um bom diálogo em carne e osso.


Au!

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Os passeios do Luka: fogos, bah!



Au!

Nesse primeiro dia do novo ano, em meu passeio matinal as ruas estavam desertas. Só um ou outro humano surgia, de vez em quando, para provar que a cidade não fora evacuada durante a noite, após aquela barulheira infernal dos fogos.

Fogos, bah! Se esses humanos tivessem metade da capacidade auditiva que os cães têm, não estourariam essas coisas, nem ficariam festejando com o som tão alto que parece que não é o ano que está acabando, é o mundo!

Meus irmãos caninos ficam tão assustados, que o trauma é inevitável. Seus humanos, que realmente se importam com eles, ainda não conseguiram convencer os outros humanos sobre a necessidade da moderação.

Aliás, pelas discussões que dava para ouvir entre os alcoolizados ou os que queriam continuar a festança barulhenta madrugada a dentro, e os que pedem o respeito às leis e ao bom senso para poderem descansar, fico me perguntando como esses bípedes pelados querem que o Ano Novo seja realmente de paz, amor e coisas boas, se logo no primeiro instante já estão fora de si, querendo apenas o que julgam ser seus "direitos" e sem respeitar os dos outros humanos, que dizer então dos direitos dos animais?

E depois o irracional sou eu...

Au!

domingo, 28 de dezembro de 2014

Os passeios do Luka: três perguntinhas...

Au!



Os humanos que vivem comigo me chamam de Luka e dizem que sou um Yorkshire de 10 anos; pelo meu visual, cheiro e personalidade inconfundíveis, eu sei quem sou, mas esses humanos parece que precisam de cada vez mais rótulos para tentarem identificar e entender algo.

Minha matilha é meio diferente, parece o tal Exército de Brancaleone: tem dois humanos (Claudinei e Patrícia, que também se chamam de Cao e Pat - mais rótulos confusos!) e quatro gatos (Nick, Kevin, Kate e Nicoleta)... qualquer dia desses conto alguma coisa deles.

Saio duas vezes por dia para levar algum dos meus humanos para passear (às vezes vão os dois; dá mais trabalho para cuidar, mas eles ficam felizes de estar junto comigo). Enquanto reforço a minha marcação de território, aprecio o mundo e filosofo um pouco, espero que esses bípedes aprendam algo com o passeio educativo. Mas geralmente eles são meio devagar para perceber as coisas - como todos os humanos.

Hoje, por exemplo, estava um calor de rachar mamona e eu conduzia meu humano pelo lado da calçada que tinha uma sombra protetora, quando uma humana jovem passou por nós no meio da rua, no sol, ladeira acima, arrastando os pés na tentativa de correr, só Anúbis sabe por que.

Com ossos grandes, pernas grossas e quadril largo, aquela bípede não tem nem desenho nem construção adequados para correr. Como ela não estava em risco de virar comida, nem correndo atrás da refeição que a manteria viva, por que então estava fazendo aquele despropósito consigo mesma?

Já ouvi os humanos falarem um monte de coisa para justificar esse tipo de atitude: que é pela saúde, pelo esporte,  para entrar em forma, pela superação, para socializar, e por aí vai. Ao invés de discutir e derrubar cada uma dessas pálidas desculpas, dou a eles apenas três perguntinhas para responderem, nessa ordem, antes de começar qualquer coisa:
_Eu preciso?
_Eu posso?
_Eu quero?

Isso implica, entre outras coisas, em prestar atenção ao que é desejo (estímulo externo) e vontade (impulso interno), e ao custo/benefício (o que tenho de dar ou suportar para realizar ou ter aquilo que quero); saber o que realmente é adequado a si e o que é viável. E aceitar e lidar com isso.

Pelas respostas - ou ausência delas - fico me perguntando quem é o irracional, afinal de contas.

Aproveite para pensar, mas não demore, pois no próximo passeio posso trazer alguma coisa nova para compartilhar.

Au!